Cruciferas, fonte de Indol-3-Carbinol

Indol-3-Carbinol um fitonutriente promissor na prevenção e auxiliar no tratamento do câncer

Antes da publicação do genoma humano, acreditava-se que a genética comandava a biologia humana, acreditava-se que estávamos indefesos e presos a nossa genética, a nossa hereditariedade. Se por acaso viessemos a nascer em uma família com históricos de câncer de mama, próstata, etc, estariamos "condenados" a esta ou aquela doença. Felizmente depois da publicação do genoma humano, ficou claro que quem dirigia a biologia humana não era a genética, e sim, a epigenética, nutrigenética. Mesmo que uma pessoa possuia o gene do câncer, através de uma intervenção de nutrigenética, é possível silenciar a expressão génica desse câncer, impedir que ele venha a se manifestar de forma maléfica.

Seja através da suplementação isolada da substância Indol-3-Carbinol (I3C), ou através da constante ingestão de alimentos funcionais da família das crucíferas como brócolis, couve-flor, couve de bruxelas, repolho, nabo, diversos estudos e pesquisas científicas, inclusive randomizados e duplo-cego vêm demonstrando a eficácia da quimio-prevenção através de fitonutrientes que estão presentes nos em alguns alimentos funcionais da família das crucíferas.

O Indol-3-Carbinol é um fitonutriente que possui diversas propriedades, das quais, as principais são: agir como agente antitumoral, anti-inflamatório, antineoplásica e antioxidante.

Os indóis (composto orgânico aromático heterocíclico) quando entram em contato com os ácidos gástricos ele é convertido em 3,3’-diindolilmetano (DIM), que possui ação comprovada na prevenção do câncer, pois ele promove o aumento da apoptose celular nas células cancerígenas, além de inibir e parar o crescimento de linhagens tumorais.

Antes de continuarmos, é interessante saber o que é a apoptose celular. As células morrem através de um processo conhecido como apoptose, que é a morte programada da célula, quando ela alcançou a quantidade máxima de divisões celulares, que culmina com o encurtamento do telômero da célula, telômero é uma estrutura que fica na extremidade do cromossomo, é ele quem impede do DNA se “desfiar”. O Telômero pode ser comparado a extremidade do cadarço do sapado, aquela proteção impede que o cadarço se desfie, o telômero é semelhante, só que ele impede que o DNA se “desfie”, quando o telômero encurta, então uma enzima chamada caspase-9, surge e faz com que a célula entre num processo de apoptose, ou seja de morte celular.

É importante saber que, a célula cancerígena ela não possui apoptose, e, além disso, as células cancerígenas se reproduzem onze vezes mais rápido que as células comuns. Por esta razão que se diz que as células cancerígenas são teoricamente “eternas”, pois elas não sofrem apoptose.

O Indol-3-Carbinol promove uma forte ação antineoplásica em cânceres de mama, ovários e da próstata, devido à inibição de um tipo de estrogênio (16-alfa hidroxi-estrona) que causa danos no DNA inibindo a apoptose das células cancerígenas, e, deste modo, promovendo a proliferação destas células tumorais, podendo chegar a gerar metástase, que é a disseminação do câncer para outros órgãos. O Indol-3-Carbinol age realizando uma metilação, a metilação do DNA é um dos vários mecanismos epigenéticos que podem controlar a expressão gênica, sem alterações da sequência de DNA. Este estudo é parte de um esforço de pesquisa mais amplo, financiado pelo NIEHS, para entender como os fatores ambientais e outros mecanismos epigenéticos afetam em relação à saúde. O grupo metil, é um grupo que silencia genes, geralmente oncogênicos, genes que irão causar câncer.

Outra função desempenhada pelo Indol-3-Carbinol é manter o balanço entre estrogénio/ testosterona equilibrada. Esse equilíbrio é importante para o sistema endócrino do homem e da mulher. Nas mulheres, que possuem síndrome pré-menstrual, o Indol-3-Carbinol ajuda a manter a testosterona na sua forma ativa livre, promovendo uma melhora na libido e no humor.

De todos os vegetais encontrados na natureza, os legumes da família das crucíferas são os que contêm uma maior variedade de moléculas fitoquímicas com propriedades anticâncer, os legumes crucíferos contêm também concentrações elevadas de compostos conhecidos como glicosinolatos. Contudo a prevenção do câncer através na nutrição não tem relação com estas moléculas, mas sim pela capacidade destas liberarem duas classes de compostos com propriedades anticancerígenas elevadas que são os isotiocianatos e os indóis (Quadro 8).

Estudos mostraram que as substâncias formadas pelo indol-3-carbinol (glicosinolatos) são benéficas às células estomacais, pulmonares, retais e uterinas. As pesquisas apontam que este fitoquímico diminuiria as taxas de estrógenos circulantes, impedindo desta forma, a formação de células cancerígenas, tendo ela uma ação predominantemente antineoplásicas (anticancerígena).

Existem diversos estudos em seres humanos, inclusive duplo-cego e randomizados, que serão mostrados ao final. Além disso, estudos realizados com uma raça de camundongos fêmeas geneticamente predispostas ao câncer de mama, demonstraram que uma alimentação rica em indol-3-carbinol reduziu em 50% o acometimento da neoplasia mamária. Outros estudos sugeriram que esta substância seria capaz de impedir a proliferação de células cancerígenas da mama humana, dependente ou independente de estrógeno. Embora os mecanismos de ação do indol-3-carbinol não estarem bem compreendidos, diversos estudos observam a supressão de tumores, entre eles, mama, próstata, endométrio, colorretal, entre outros.

Outros pequenos estudos também em seres humanos também apontaram uma melhora em condições relacionados com o vírus do papiloma humano (HPV), como neoplasias intraepitelial cervical e papilomatase respiratória recorrente (RRP) após suplementação com indol-3-carbinol. 

Mais de uma centena de glicosinolatos existem na natureza, servindo de “reservatório” destinado à estocagem de vários isotiocianatos e indóis diferentes, dotados de um grande potencial anticancerígeno (Quadro 9).

Para ilustrar como tudo isso funciona, vamos tomar o exemplo de uma pessoa preocupada com a sua saúde, que se prepara para comer um ramo de brócolis, uma boa fonte de glicosinolatos. Durante a mastigação do legume, as células da planta são quebradas, o que provoca a mistura dos diferentes compartimentos presentes nas células, normalmente separados entre si.

Os glicosinolatos que estavam estocados num dos compartimentos das células de brócolis são então postos em contato com a mirosinose, uma enzima presente em outro compartimento, e que tem por função cortar certas partes das moléculas de glicosinolatos. No caso que nos interessa, a mastigação do brócolis faz com que o isotiocianato principal desse legume, a glicorafanina, se encontre subitamente na presença da mirosinase e seja imediatamente transformada em sulforafano, uma potente molécula anticancerígena (Figura 22). Em outras palavras, as moléculas anticâncer dos legumes crucíferos estão presentes em estado latente nos legumes intatos, mas o consumo desses legumes permite liberar os compostos ativos anticancerígenos, que podem então cumprir as funções anticancerígenas descritas.

Em virtude da complexidade desse mecanismo, vários fatores devem ser considerados para maximizar o aporte de isotiocianatos e ín-dóis oferecido pelo legume crucífero. Primeiramente, é importante notar que os glicosinolatos são muito solúveis em água: um cozimento com muita água das crucíferas, em apenas dez minutos de fervura, reduz à metade a quantidade de glicosinolatos presentes nesses legumes e deve pois ser evitado. Em segundo lugar, a atividade da mirosinase é muito sensível ao calor, de modo que o cozimento prolongado dos legumes, com muita água ou não, reduz substancialmente a quantidade de isotiocianatos que pode ser liberada uma vez o legume consumido. Certos estudos sugerem que uma outra mirosinase, presente no nível da flora intestinal, poderia compensar essa motivação da enzima do legume causada pelo calor e assim aumentar a quantidade de isotiocianatos que pode ser absorvida, mas esse papel da mirosinase intestinal ainda está obscuro. É pois preferível cozinhar as crucíferas o menos possível, com um mínimo de líquido, para reduzir a perda de atividade da mirosinase e dos glicosinolatos, ocasionada pelo contato dos legumes com a água.

Técnicas de cozimento rápido a vapor, ou ainda o refogado no wok, são certamente maneiras práticas de maximizar a quantidade de moléculas anticâncer oferecidas pêlos legumes crucíferos, além de torná-los geralmente mais atraentes e com melhor sabor. Os produtos congelados sofrem uma etapa de “branqueamento” em temperatura elevada quando de sua produção, o que reduz tanto o seu conteúdo de glicosinolatos quanto a atividade da mirosinase, e esses produtos são, assim, uma fonte de moléculas anti-cancerígenas nitidamente inferior aos legumes frescos. Enfim, para favorecer a liberação das moléculas ativas, lembrem-se de mastigar bem os legumes antes de engoli-los!

Resumindo: Os vegetais crucíferos quando em ebulição de 9 a 15 minutos podem perder até 59% dos glicosinolatos totais, desta maneira a melhor forma de aproveitar ao máximo os glicosinolatos é através de comê-los cru, ou cozinhando-os no vapor, onde estas perdas são reduzidas se comparado a fervê-los na água. Contudo, cozinhar vegetais crucíferos ao vapor por muito tempo ou utilizando micro-ondas em alta potência, podem acabar inativando a enzima que é responsável pela catalisação da hidrólise de glicosinolatos (mirosinase). Mesmo assim, nossas bactérias presentes na microbiota intestinal são capazes de realizar esta quebra, porém de forma substancialmente reduzida, aqui fica claro mais uma importante função da microbiota intestinal e o quanto devemos cuidar melhor dela.

Como já mencionado acima, uma outra forma de fazer uso do indol-3-carbinol é através da suplementação, onde é possível adquirir essa subtância já isolada.

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